Editorial

Melhores de 2018
Postado em 12 de janeiro de 2019 @ 20:40 | 190 views

Boas tradições devem ser mantidas. Então porque não fazer minha lista dos melhores álbuns de 2018?
É claro que nessa lista poderiam estar alguns discos das bandas que representamos como gestores culturais pela Som do Darma, como é o caso do “Espresso Della Vita: Solare”, do Maestrick, que etá sendo presença constante nas listas de outros colegas da imprensa especializada. Poderia citar também “Ancient Arts Of Survival” dos norte-americanos do Sunrunner ou ainda o vanguardista EP “Olhos Vermelhos” do Psychotic Eyes. Mas, embora eu, enfaticamente, recomende que vocês deem uma conferida nesses álbuns, prefiro manter a imparcialidade na lista abaixo.
Vamos lá então:

 

 

1- Fifth Angel – The Third Secret
2- Metal Church – Damned If You Do
3- Gioeli-Castronovo – Set The World On Fire
4- Lucifer – Lucifer II
5- Conception – My Dark Symphony
6- Voivod – The Wake
7- Halestorm – Vicious
8- Perfect Plan – All Rise
9- Spock’s Beard – Noise Floor
10 – Dee Snider – For The Love Of Metal


O rock não morreu, mas envelhece comigo e com você.
Postado em 16 de julho de 2018 @ 15:28 | 1.234 views

Há tempos venho constatando a falta de jovens nos shows de rock e heavy metal e o gradativo aumento da faixa etária do público. As razões poderiam ser muitas. As soluções também. Mas talvez a mais importante seja entender que se os jovens não ouvem ou comparecem a shows de rock e heavy metal é simplesmente porque não se interessam pelos estilos.

Responsabilizar o jovem por essa falta de interesse é no mínimo uma demonstração piegas de saudosismo. É repetir o mesmo discurso dos nossos pais: “essa juventude está perdida”. Quando jovem, eu adorava estar perdido e o heavy metal ajudou a me encontrar. Vivi minha adolescência entre o fim dos anos 80 e começo dos anos 90 e vi surgir grupos como Guns ‘N’ Roses, Faith No More, Alice In Chains, Pantera, Dream Theater, etc. Quando assisti os clipes dessas bandas na MTV, eu tive, pela primeira vez, a percepção de identidade. Daquele momento em diante eu sabia quem eu era. Hoje, aos 40, continuo sendo o mesmo roqueiro adolescente dos anos 90. Com algumas responsabilidades a mais, mas com o mesmo espírito jovem. E isso me mantém vivo. Isso me faz ter vontade de viver! Nunca velho demais para o rock, esse é o lema, certo?

Mas e os jovens de hoje? Por que o rock e o metal não falam mais com eles? Penso que eu e você nos apegamos e nos apropriamos de tal forma desse rock e heavy metal que não permitimos qualquer mudança para além dos limites identitários que o fazem ser como o conhecemos e como nos conhecemos na relação com ele. Se é para surgir uma banda nova, ela tem que soar como as bandas antigas. Se é para ter uma banda só de meninas sul-americanas, elas têm que tocar thrash metal ao estilo dos anos 80. Mesmo quando se propõe ao presente, ao desconhecido, o rock e o heavy metal se projetam ao passado.

Às margens de questões estético-musicais, o rock e o metal são movimentos culturais com uma enorme capacidade de lidar com as angustias humanas. Talvez o principal deles! No rock/metal, a poesia é igualmente bela quando descreve um dia cinza ou ensolarado. Não foi a toa que o Nirvana foi o símbolo de uma geração. Cheirava a espírito adolescente! E os jovens que cresceram nos anos 80 odiaram o Nirvana porque eles representaram a nova ordem do rock naquele momento. Mas o jovem de 2018 não tem mais o mesmo cheiro do jovem dos anos 90. Nem dos anos 2000.

Propagaremos aos nossos filhos e descendentes a educação que recebemos de nossos pais que achavam que estávamos perdidos quando não pensávamos como eles, ou tentaremos entender como pensam os jovens e quais são suas angustias – que no fundo continuam sendo as mesmas que as nossas, transformadas em novos idealismos? Definharemos em nossa própria incapacidade – originada no medo – de se lançar ao novo, ao desconhecido, e morreremos abraçados com o rock e o metal a tira colo ou deixaremos esse movimento cultural livre para encontrar a juventude contemporânea e assim imortalizar-se num eterno ciclo de auto redescobrimento?


Intervenção Cultural Já!
Postado em 02 de junho de 2018 @ 19:11 | 1.210 views

“Quando vejo um jovem defendendo a volta dos militares, me vejo fracassado como professor de história” – Leandro Karnal.

Sem desconsiderar, veementemente, o erro da produção ao tentar realizar um show internacional numa casa sem o devido alvará para funcionamento, mas foi com perplexidade que, ao sair do Mineiro Rock Bar em Osasco/SP nesta última sexta-feira, dia 01 de Junho de 2018,  avistei três viaturas da Polícia Militar, outras duas da guarda municipal de Osasco e um grande efetivo de policiais. Toda essa mobilização, digna de uma grande operação, apenas para cumprir uma ação de embargo das atividades em andamento, no caso o show do grupo inglês Grim Reaper, ícone da NWOBHM, e de outras quatro bandas de abertura: Setenciador, Álcool, Tenebrario e Sweet Danger.

O Tenebrário estava no meio do seu set quando a apresentação foi extraordinariamente interrompida. A principio o público pensou se tratar de problemas técnicos, já que nenhum comunicado foi feito ao público. Já havia se passado um longo tempo quando a verdadeira razão da interrupção estava sendo transmitida pelo e entre o público: a casa não estava com alvará de funcionamento em dia e o show seria interrompido. Algum tempo depois, com a manifesta frustração do público, a produção subiu ao palco dizendo que o show do Grim Reaper seria transferido para o dia seguinte, sábado, 02 de Junho, às 19hs. Foi reservado o direito de devolução de dinheiro àqueles insatisfeitos, o que a casa cumpriu, pelo que pude constatar.

O público deixava a casa de forma ordeira, sem nenhuma manifestação acalorada, muito menos violenta, a não ser por um pequeno período de pânico quando houve coação policial sob ameaça de lançamento de bombas de gás lacrimogêneo dentro da casa para evacuação forçada do público.

Além da frustração de não ter visto o show do Grim Reaper – e o set completo do Tenebrario,  além do show do Sweet Danger que fecharia a noite –  me senti desrespeitado pela polícia. Deixar a casa e visualizar tamanho efetivo policial, me fez sentir um criminoso. Me fez refletir sobre as incontáveis vezes que fui abordado por policiais na rua só por ter cabelo comprido e vestir roupas pretas. Tantos anos se passaram desde a primeira vez que vivenciei essa experiencia humilhante e nada mudou. Assuntos bastante relevantes na contemporaneidade como a igualdade de gêneros, o combate ao racismo e a homofobia, nos dão apenas uma falsa sensação de um nível intelectual e cultural mais elevado. Para todas essas questões, a retórica é o limite.

Em tempos onde parte da população pede por intervenção militar, o ocorrido neste dia 1 de Junho foi um apetitoso aperitivo. Se precisamos de algum tipo de intervenção, a única justificável seria a de uma intervenção cultural. Não apenas no sentido de intervenção das artes, mas uma intervenção no sentido antropológico de cultura: a cultura como instância onde o sujeito realiza sua humanidade.

Imagens do efetivo da PM e da Guarda Municipal na frente do Mineiro Rock Bar na noite do dia 1 de Junho de 2018

 

 

 


Música, a felicidade da vida.
Postado em 24 de fevereiro de 2018 @ 14:33 | 778 views

O sofrimento é inerente à vida humana. A felicidade, uma escolha.

O sofrimento é como uma herança trazida do não-criado. Todo e qualquer ser vivo, independente de espécie, local de nascimento, cor da pele, orientação sexual, visão política, quantidade de dinheiro, famoso ou anônimo, vai, inevitavelmente, enfrentar envelhecimento, doença e morte, causas do sofrimento. O sofrimento é, de fato, democrático.

O sofrimento é o ponto de partida. A felicidade, uma opção de destino.

A felicidade não é possível através de livros de autoajuda, ansiolíticos ou outras drogas pois ela transcende o efeito de mitigação. O desejo de ser feliz pode até nascer do desejo de fazer parar a dor, mas quando a felicidade toma conta, o desejo é de que o próprio tempo pare!

A felicidade só pode acontecer no aqui e agora. Através de um irresistível desejo de paralização eterna do tempo. Se você está lendo esse texto, há grandes chances de já ter sentido isso, pelo menos uma vez, através da música. Se nunca sentiu, talvez esteja ouvindo música da mesma forma que se recorre aos livros de autoajuda, ansiolíticos ou outras drogas.

A música é capaz de muito mais! A música é a própria felicidade.

Mesmo a música mais depressiva pode causar felicidade. Felicidade, afinal, é um estado de espírito, pressupõe introspecção, enquanto que a anatomia de um sorriso pode até mesmo implicar a necessidade de uma boa selfie para o Instagram. Diga Xis!

 

A música nos fazer fechar os olhos, põe a mente a cessar.

Uma energia que nasce de lugar algum, faz os pelos arrepiar.

Um estado de presença, um comungar

Com a música ser, com a música estar.

Para sempre.

 
Se na vida o sofrimento é a herança trazida do não-criado, a música é o presente a se levar de volta pra casa.

 

                                                                                                                                Foto: Reprodução (Pedro Kirilos/ Agência O Globo)

 

 


O velho contra o novo, o novo contra o novo
Postado em 20 de novembro de 2017 @ 23:39 | 1.134 views

Recentemente recebi através de um grupo do WhatsApp um cartaz com as supostas atrações da edição 2018 do festival HellFest na França, um dos maiores e mais importantes de todo o mundo no segmento rock/metal. Todos os participantes desse grupo estavam muitos exaltados comentando o quanto aquele line-up estava incrível, com várias bandas que todos adoravam. Inclusive eu, é claro!

Pouco tempo depois, sob um olhar mais crítico, observei que se por um lado aquele line-up era mesmo algo de espetacular, por outro era um grande desastre!

A desventura, nesse caso, se apoia na baixíssima quantidade de bandas novas no line-up de um festival tão importante como o Hellfest –  exemplo praticamente unânime entre todos os outros principais festivais de rock pesado ao redor do mundo. E a fatalidade desse caso se apoia em questões naturais: os músicos das bandas clássicas, antigas, não sobreviverão para sempre!

A lógica é mesmo simples: não há bandas novas porque as pessoas não querem ouvir bandas novas! Mesmo os fãs mais jovens do estilo (que continuam surgindo) preferem ouvir os grandes medalhões.

Se a lógica é simples para a ausência de novas bandas nos importantes festivais internacionais, há de ser também para explicar a falta de interesse do público por essas bandas novas?

 

“Na verdade, há muita música boa por aí. Essa é a notícia boa. A notícia ruim é que é tão difícil para a música boa se destacar das outras músicas que não são tão boas, por conta do óbvio desaparecimento da indústria da música.” – Lars Ulrich.

 

Essa declaração acima foi dada pelo baterista do Metallica ao programa “Rock Show With Daniel P. Carter” da BBC Radio 1. E se há uma autoridade máxima no mercado do rock e heavy metal são os donos da marca Metallica. Assim como a Apple ou Microsoft, o Metallica saiu de uma garagem para se tornar uma das marcas de maior sucesso e mais valiosas em todo mundo. Lars e James Hetfield, ao lado de Ozzy Osbourne, são os músicos de heavy metal mais ricos do metal em todo o mundo, com uma fortuna avaliada em cerca de 200 milhões de dólares cada. Então se estamos analisando música pesada pela perspectiva mercantil, eles são, definitivamente, a referência máxima. De forma que as palavras de Lars – e as ações do Metallica – são determinantes para tentarmos entender porque há um desinteresse do público por novas bandas.

Considerar a falta de qualidade e relevância das bandas contemporâneas é no mínimo dispensável. Quem delibera a favor desse argumento o faz destituído de qualquer lógica e denota nada mais do que um comportamento indolente frente a numerosa e diversa produção criativa contemporânea.  “(…) há muita música boa por aí”, afirmou Ulrich que pesquisa bandas novas no Youtube para tocar em seu programa de rádio “It’s Eletric”.

A solução proposta por Ulrich é, portanto, a mais razoável de todas: o “óbvio desaparecimento da indústria da música”. Peter Mensch, proprietário da Q Prime, companhia que empresaria o Metallica (além de AC/DC, Def Leppard, Red Hot Chili Peppers, etc), também em entrevista, à BBC Radio 4, delibera a favor de Ulrich ao dizer que a razão pelo não surgimento de novas bandas está, de fato, na falta de investimentos no mercado: “As vendas de discos ou streaming não são muito significativas e há menos dinheiro para o lançamento de novas bandas do que há 20 anos”.

Por uma perspectiva sociopolítica poderíamos aqui fazer referência a teoria do capitalismo tardio, mas como nossas pretensões são mais modestas, vale apenas destacar o comportamento dos metalheads enquanto sociedade de consumo. Sem investimentos, portanto sem produção de novos produtos (novas bandas), o consumo se concentra apenas nos produtos já disponíveis no mercado (antigas bandas).

A mediação do Estado nesse momento passa a ser fundamental. Especialmente porque através das políticas públicas de cultura, a música, o rock, o heavy metal ganham novas definições através da antropologia que promovem o resgate da expressividade, do simbólico, da identidade, dos sujeitos, conferindo-lhes maior valor frente a produção de música em série (LPs, CDs, streamings, etc). Mas as políticas públicas de cultura estão longe de serem soluções para que novas bandas de rock/metal estejam mais presentes nos grandes festivais internacionais de rock e heavy metal. Embora possam ser absolutamente significativas para a manutenção da produção criativa e formação de público, elas não são pactuantes com o mercado.

Frente ao desaparecimento da indústria e o balizamento das políticas públicas de cultura, a utopia roqueira de liberdade de pensamento é sempre um recurso.  O maior desafio, nesse caso, é exercer essa liberdade em grupo, uma vez que estamos lidando com uma questão da coletividade. A falta de interesse do público não é exclusividade de nenhuma banda nova, mas de todas, no plural, sem restrições de território, raça, gênero ou qualquer aspecto discriminatório.

Reiterar a favor da competitividade nesse momento é como brigar para roer ossos. E esse parece ser o comportamento predominante na contemporaneidade metaleira. Mais razoável seria que bandas e músicos se unissem e deliberassem a favor do trabalho em grupo para tentar encontrar soluções criativas e éticas. Se no final não conseguirem tocar no Hellfest, pelo menos, através da união, já terão criado seu próprio festival de bandas novas. Até mesmo o Hellfest teve sua primeira edição.

“Se quiser ir rápido, vá sozinho. Se quiser ir longe, vá em grupo.” – Provérbio Africano.

(Essa postagem foi feita no Dia da Consciência Negra)

 



 
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