Editorial

Nascemos e morremos. Nesse intervalo, assediamos o sucesso.
Postado em 24 de maio de 2019 @ 13:17 | 188 views

Parece haver inerência entre a percepção ocidental de sucesso e a tríade poder, fama e riqueza. Sob diferentes contextos, a persona ocidental de certa forma dedica toda sua vida à busca por essa condição de sucesso. Na música, principalmente no rock, baseado em minhas experiências profissionais e pessoais, percebo quase uma obsessão por poder, fama e dinheiro – um verdadeiro assédio a essa categoria de sucesso!

Talvez porque, há 70 anos, desde seu limiar, o rock vem estabelecendo fortes ligações com o mercado. Seria estranho imaginar algo diferente considerando que o estilo musical nasceu em berço neoliberal. Aliás, o espírito libertário do rock caiu muito bem para a causa neoliberal. Lobo em pele de cordeiro, o mercado se aproximou do rock e transformou rebeldes e vagabundos em músicos milionários platinados! Um case dos sonhos! Depois do começo com Elvis e a Beatlemania, nas três décadas seguintes o mercado veio garantindo que o rock sempre estivesse no topo dos mais vendidos! E o rock, por sua vez, foi iludido, enganado. Coitado.

Quando a indústria fonográfica, que mediava a relação entre mercado e rock ‘n’ roll, atingiu seu declínio, o mercado, por padrão, fez do rock ‘n’ roll objeto de descarte. Dessa relação sobraram os antigos discos de vinil, fitas cassete, CDs e DVDs, tudo sendo vendido nos melhores sebos da sua cidade.

Mas ainda hoje é difícil, para os músicos e para toda cadeia de profissionais ligados à música, e talvez principalmente para o fã, se livrar dessa concepção de sucesso sustentada por valores econômicos, portanto de poder e fama. Hoje, para que um disco/música seja bem-sucedida, ela tem que estar nas playlists do Spotify! Para que uma banda seja bem-sucedida, ela tem que ter muitos seguidores no Face e suas fotos precisam sempre bombar no Insta. E os shows… Ah os shows! Esses têm que sempre estar lotados!

A maior tragédia é quando o sucesso vira lembrança. E muitas vezes é preciso conseguir poder, fama e riqueza, “chegar lá” de fato, para se perceber que o sucesso aconteceu, passou, ficou pelo caminho, e nem percebemos.

Gandhi dizia que “o sucesso não está apenas na conquista, mas em todo percurso”. Eu pessoalmente gosto dessa definição de sucesso.
Qual é a sua?

Sugestão Cultural:  Vale a pena assistir e comparar os longas “The Dirt” e “The Story Of Anvil”. Há muito mais em comum do que a aparente distinção mensurada por uma concepção de sucesso. 

Com o que você tem sonhado?
Postado em 13 de março de 2019 @ 17:18 | 284 views

Segundo Buda, “a causa de todo sofrimento humano está no desejo”. Já Freud era empírico: “o sonho é a satisfação de que o desejo se realize”.

Desejar. Sonhar.
Sonhar. Desejar.

Há mesmo algo de misterioso no desejo. E algo de incompleto.
O desejo é sempre um projetar-se, um constante estar por vir.
Desejar é o sentir da ausência. Como sonhar.

Me lembro da época em que eu editava a Valhalla impressa. Eu tinha a oportunidade de entrevistar e encontrar alguns dos meus maiores ídolos, era convidado para festas, cobria os principais shows de rock no Brasil, etc. Tinha o emprego dos “sonhos”. Mas a mente nunca desiste de “desejar”: “como seria estar em turnê, passar um tempo na estrada, tocando todo dia?”. Esse era meu desejo, projetado em sonhos, durante aqueles dias de redação.

Estar em turnês tem sido uma atividade frequente durante os meus últimos dez anos. Recentemente passei 40 dias em turnê pela Europa. Quando estava lá, não via a hora de poder estar de volta pra casa e poder escrever um novo editorial como esse.

Assim como os sonhos, os desejos só cessam com a morte. Desejar, e sonhar, parecem mesmo condições para a vida humana. No Hinduísmo diz-se que toda criação é um sonho de Deus (Vishnu). Gosto de pensar que somos deuses e deusas e através dos nosso sonhos, e desejos, podemos criar maravilhas. E tragédias.

Desejar.
Sonhar.
Vigiar.

 


Melhores de 2018
Postado em 12 de janeiro de 2019 @ 20:40 | 392 views

Boas tradições devem ser mantidas. Então porque não fazer minha lista dos melhores álbuns de 2018?
É claro que nessa lista poderiam estar alguns discos das bandas que representamos como gestores culturais pela Som do Darma, como é o caso do “Espresso Della Vita: Solare”, do Maestrick, que etá sendo presença constante nas listas de outros colegas da imprensa especializada. Poderia citar também “Ancient Arts Of Survival” dos norte-americanos do Sunrunner ou ainda o vanguardista EP “Olhos Vermelhos” do Psychotic Eyes. Mas, embora eu, enfaticamente, recomende que vocês deem uma conferida nesses álbuns, prefiro manter a imparcialidade na lista abaixo.
Vamos lá então:

 

 

1- Fifth Angel – The Third Secret
2- Metal Church – Damned If You Do
3- Gioeli-Castronovo – Set The World On Fire
4- Lucifer – Lucifer II
5- Conception – My Dark Symphony
6- Voivod – The Wake
7- Halestorm – Vicious
8- Perfect Plan – All Rise
9- Spock’s Beard – Noise Floor
10 – Dee Snider – For The Love Of Metal


O rock não morreu, mas envelhece comigo e com você.
Postado em 16 de julho de 2018 @ 15:28 | 1.614 views

Há tempos venho constatando a falta de jovens nos shows de rock e heavy metal e o gradativo aumento da faixa etária do público. As razões poderiam ser muitas. As soluções também. Mas talvez a mais importante seja entender que se os jovens não ouvem ou comparecem a shows de rock e heavy metal é simplesmente porque não se interessam pelos estilos.

Responsabilizar o jovem por essa falta de interesse é no mínimo uma demonstração piegas de saudosismo. É repetir o mesmo discurso dos nossos pais: “essa juventude está perdida”. Quando jovem, eu adorava estar perdido e o heavy metal ajudou a me encontrar. Vivi minha adolescência entre o fim dos anos 80 e começo dos anos 90 e vi surgir grupos como Guns ‘N’ Roses, Faith No More, Alice In Chains, Pantera, Dream Theater, etc. Quando assisti os clipes dessas bandas na MTV, eu tive, pela primeira vez, a percepção de identidade. Daquele momento em diante eu sabia quem eu era. Hoje, aos 40, continuo sendo o mesmo roqueiro adolescente dos anos 90. Com algumas responsabilidades a mais, mas com o mesmo espírito jovem. E isso me mantém vivo. Isso me faz ter vontade de viver! Nunca velho demais para o rock, esse é o lema, certo?

Mas e os jovens de hoje? Por que o rock e o metal não falam mais com eles? Penso que eu e você nos apegamos e nos apropriamos de tal forma desse rock e heavy metal que não permitimos qualquer mudança para além dos limites identitários que o fazem ser como o conhecemos e como nos conhecemos na relação com ele. Se é para surgir uma banda nova, ela tem que soar como as bandas antigas. Se é para ter uma banda só de meninas sul-americanas, elas têm que tocar thrash metal ao estilo dos anos 80. Mesmo quando se propõe ao presente, ao desconhecido, o rock e o heavy metal se projetam ao passado.

Às margens de questões estético-musicais, o rock e o metal são movimentos culturais com uma enorme capacidade de lidar com as angustias humanas. Talvez o principal deles! No rock/metal, a poesia é igualmente bela quando descreve um dia cinza ou ensolarado. Não foi a toa que o Nirvana foi o símbolo de uma geração. Cheirava a espírito adolescente! E os jovens que cresceram nos anos 80 odiaram o Nirvana porque eles representaram a nova ordem do rock naquele momento. Mas o jovem de 2018 não tem mais o mesmo cheiro do jovem dos anos 90. Nem dos anos 2000.

Propagaremos aos nossos filhos e descendentes a educação que recebemos de nossos pais que achavam que estávamos perdidos quando não pensávamos como eles, ou tentaremos entender como pensam os jovens e quais são suas angustias – que no fundo continuam sendo as mesmas que as nossas, transformadas em novos idealismos? Definharemos em nossa própria incapacidade – originada no medo – de se lançar ao novo, ao desconhecido, e morreremos abraçados com o rock e o metal a tira colo ou deixaremos esse movimento cultural livre para encontrar a juventude contemporânea e assim imortalizar-se num eterno ciclo de auto redescobrimento?


Intervenção Cultural Já!
Postado em 02 de junho de 2018 @ 19:11 | 1.441 views

“Quando vejo um jovem defendendo a volta dos militares, me vejo fracassado como professor de história” – Leandro Karnal.

Sem desconsiderar, veementemente, o erro da produção ao tentar realizar um show internacional numa casa sem o devido alvará para funcionamento, mas foi com perplexidade que, ao sair do Mineiro Rock Bar em Osasco/SP nesta última sexta-feira, dia 01 de Junho de 2018,  avistei três viaturas da Polícia Militar, outras duas da guarda municipal de Osasco e um grande efetivo de policiais. Toda essa mobilização, digna de uma grande operação, apenas para cumprir uma ação de embargo das atividades em andamento, no caso o show do grupo inglês Grim Reaper, ícone da NWOBHM, e de outras quatro bandas de abertura: Setenciador, Álcool, Tenebrario e Sweet Danger.

O Tenebrário estava no meio do seu set quando a apresentação foi extraordinariamente interrompida. A principio o público pensou se tratar de problemas técnicos, já que nenhum comunicado foi feito ao público. Já havia se passado um longo tempo quando a verdadeira razão da interrupção estava sendo transmitida pelo e entre o público: a casa não estava com alvará de funcionamento em dia e o show seria interrompido. Algum tempo depois, com a manifesta frustração do público, a produção subiu ao palco dizendo que o show do Grim Reaper seria transferido para o dia seguinte, sábado, 02 de Junho, às 19hs. Foi reservado o direito de devolução de dinheiro àqueles insatisfeitos, o que a casa cumpriu, pelo que pude constatar.

O público deixava a casa de forma ordeira, sem nenhuma manifestação acalorada, muito menos violenta, a não ser por um pequeno período de pânico quando houve coação policial sob ameaça de lançamento de bombas de gás lacrimogêneo dentro da casa para evacuação forçada do público.

Além da frustração de não ter visto o show do Grim Reaper – e o set completo do Tenebrario,  além do show do Sweet Danger que fecharia a noite –  me senti desrespeitado pela polícia. Deixar a casa e visualizar tamanho efetivo policial, me fez sentir um criminoso. Me fez refletir sobre as incontáveis vezes que fui abordado por policiais na rua só por ter cabelo comprido e vestir roupas pretas. Tantos anos se passaram desde a primeira vez que vivenciei essa experiencia humilhante e nada mudou. Assuntos bastante relevantes na contemporaneidade como a igualdade de gêneros, o combate ao racismo e a homofobia, nos dão apenas uma falsa sensação de um nível intelectual e cultural mais elevado. Para todas essas questões, a retórica é o limite.

Em tempos onde parte da população pede por intervenção militar, o ocorrido neste dia 1 de Junho foi um apetitoso aperitivo. Se precisamos de algum tipo de intervenção, a única justificável seria a de uma intervenção cultural. Não apenas no sentido de intervenção das artes, mas uma intervenção no sentido antropológico de cultura: a cultura como instância onde o sujeito realiza sua humanidade.

Imagens do efetivo da PM e da Guarda Municipal na frente do Mineiro Rock Bar na noite do dia 1 de Junho de 2018

 

 

 



 
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