Editorial

Hologramas, covers e afins… (Agosto de 2017)
Postado em 08 de agosto de 2017 @ 19:43 | 274 views

O dia 5 de julho de 1954 é considerado o “marco zero” do rock. Foi nesse dia que Elvis Presley gravou “That’s All Right” de Arthur Crudup para a Sun Records.

Não é subliminar a ideia de que o rock estabeleceu uma relação muito próxima com o mercado desde a sua origem.  O rock nasceu de uma gravação, de um acordo entre um artista e um estúdio fonográfico que visava registrar e replicar tal fonograma, como um produto em série, para então comercializá-lo. De forma que não seria de todo erro dizer que o rock foi criado pelo próprio mercado. Um produto, desde sua origem.

Isso pressupõe que desde Elvis nossa liberdade de escolha tem sido relativizada. As bandas que mais amamos têm sido escolhidas PARA nós. E não POR nós! Não sou louco de querer destituir o nosso amado Black Sabbath do posto de criadores do heavy metal, mas é fato que na época haviam outros grupos fazendo um som similar. Mas em dezembro de 1969 o Sabbath é quem foi o escolhido para gravar. Ainda bem, cá entre nós. 😊

Outras pessoas também escolheram, antes de nós, as músicas que são a trilha sonora de nossas vidas. Decerto que seus propósitos tinham muito mais a ver com dinheiro e poder do que fomentar a cultura pelo viés da antropologia.

É fato que os profissionais dos departamentos de Artista e Repertório (A&R) das gravadoras não estiveram sozinhos nessa. Muitos apertos de mãos colocaram artistas em capas de revistas e na programação das rádios. Jabá? Mito! Só que não.

Mas é fato também que essas pessoas no topo da pirâmide sempre fizeram muito bem seus trabalhos. Quanta coisa boa eles nos entregaram ao longo de todos esses anos, desde 1954! Eu posso dizer que eu não seria eu se não fosse por esses caras de A&R, pelas revistas e rádios. Afinal, como imaginar a minha vida, as nossas vidas, sem os Beatles? Como imaginar não ter que escolher entre David Lee Roth ou Sammy Hagar? Que referência teríamos do que é ser um autêntico roqueiro sem Lemmy Kilmister?  E o Dio? Alguém poderia imaginar a vida sem Ronnie James Dio?

“Sem a música, a vida seria um erro”, disse Nietzsche. Sem o Iron Maiden a vida nem existiria!

Na base da pirâmide, nós acabamos por receber todas essas informações já processadas. Alguém decidiu que o Metallica inventaria o Thrash Metal! Nós só temos a agradecer por isso!

Obrigado mercado por ter feito a nossas vidas tão felizes! Mercado, nós te amamos, mas uma terceira pessoa surgiu em nosso relacionamento: a internet!

Quando Lars Ulrich brigou contra a Napster ele representou todo esse mercado. As gravadoras, as revistas, as rádios e até a MTV. De forma que o episódio é também o “marco zero” da derrocada da indústria fonográfica contra o compartilhamento de música.

Dezessete anos depois, Ulrich e companhia lançaram seu novo disco integralmente em streaming através de videoclipes no Youtube. O CD físico também saiu, mas agora pela própria gravadora da banda.

Isso é muito simbólico ao demonstrar que o mercado teve que abrir mão do ditatorialismo na escolha dos próximos Black Sabbaths, Iron Maidens e Metallicas e dividir essa tarefa com todos nós. Os vídeos do Metallica estão lá no Youtube, mas os da banda do seu amigo também. Isso nunca aconteceria no catálogo da Universal Music.

A escolha agora também é nossa. E não é gratificante pensar que sua, a nossa escolha, pode ser determinante para saber quais novas bandas serão referência no mundo do rock e do metal? Aliás, já parou para pensar que a maioria vem dos Estados Unidos e da Europa? Que tal se nascesse no Brasil um novo Slayer? E que essa banda fizesse sucesso em todo mundo tendo negros, gays e mulheres na formação! As nossas escolhas se baseiam na diversidade do que e de quem somos.

Mas é difícil escolher. Eu sei. Quando você acessa o Youtube é difícil não ver primeiro o novo vídeo do AC/DC com o Axel Rose nos vocais e só depois, se der tempo, o vídeo daquela nova banda de metal brasileira que o pessoal tá comentando.

É difícil ter que escolher entre um show de uma banda de rock autoral que você conhece pouco do que o cover do Pink Floyd que vai tocar naquele barzinho badalado da sua cidade.

O que dizer então do holograma do Dio que vem por ai! Uau! Quem nunca viu o Dio enquanto ele estava vivo vai ter a chance agora!

Será mesmo?

O quanto das nossas novas escolhas estão sendo feitas POR nós? As escolhas feitas PARA nós no passado não precisam e nem devem ser descartadas, elas representam a nossa identidade, mas para que possamos viver o presente – que é a única realidade – sem que tenhamos que recorrer a hologramas, covers e reuniões de line-up clássicos sem nenhum músico da formação clássica, é preciso que nossas escolhas sejam feitas aqui e agora, com um poder de raciocínio e decisão livre das interferências do mercado mas com a mesma qualidade de escolha que esse mesmo mercado teve no passado.

O mercado não pode fazer mais nada por nós. São apenas as nossas escolhas que poderão agora disponibilizar o nosso amado rock ao futuro.

O que você vai ouvir agora?

 


A Nostalgia é Covarde (Junho 2017)
Postado em 14 de março de 2017 @ 21:44 | 157 views

A última edição da revista Valhalla foi publicada em Novembro de 2007. De lá pra cá, com exceção de algumas poucas resenhas e cobertura de shows que escrevi para algumas outras publicações, foram 10 anos de silêncio no que diz respeito a crítica musical.

Escrever ainda faz parte do meu dia-a-dia uma vez que meu trabalho atual como gestor e produtor cultural pela Som do Darma também inclui muitas atividades voltadas à assessoria de imprensa. Escrever press releases sobre as bandas que gerenciamos é uma atividade constante e que gosto muito.

Mas recentemente me peguei sentindo falta de também escrever resenhas, entrevistas, coberturas de shows e editoriais como esse. Por que não?

Se quando iniciei a proposta era fazer um fanzine impresso, o fator econômico era um desafio que foi crescendo na mesma proporção que a ambição daquele jovem metaleiro e seu sonho de viver fazendo o que amava. O jovem hoje está na faixa dos 40, o sonho se tornou realidade e a internet é uma grande aliada.

Mas esse novo espaço não significa o retorno da Valhalla, mas apenas um desejo de seu antigo editor de voltar a escrever sobre rock e heavy metal. E por que não usar o nome Valhalla? Afinal, foi eu quem o escolheu lá em 1996, inspirado na música “Gates Of Valhalla” do Manowar.

Decidi acrescentar o “Por Eliton Tomasi” porque a Valhalla, enquanto revista, sempre foi caracterizada pelo trabalho em equipe. Agora, a finalidade só é subjetiva.

Não obstante, a Valhalla era uma publicação do mercado, precisava vender exemplares e ter anunciantes para se manter ativa. Já esse espaço não tem qualquer vínculo comercial. Não existe a intenção de escrever sobre uma determinada banda para gerar acessos ou ganhar Likes. Os textos são 100% sinceros, expressão máxima da minha subjetividade, sem qualquer outra tendência ou finalidade.

Ficarei muito feliz se os textos agradarem. Obviamente que textos são escritos para serem lidos e seria muito bacana que meus antigos leitores da revista se interessem por lê-los. Bem como  ter novos leitores significará um grande privilégio. Mas é fato que esse espaço encontra fim em si mesmo.

A Revista Vahalla foi muito importante na minha vida. Sem os 11 anos de trabalho com a publicação talvez eu não pudesse fazer o que faço hoje. A Valhalla foi fundamental para a construção da minha identidade, para descobrir o meu papel no mundo, me proporcionando um valor simbólico que é essencial para minha própria felicidade. E a felicidade não é possível através da nostalgia, pois esta pressupõe a saudade de algo que já não existe mais. A nostalgia é triste, nos faz paralisar no passado, como se temêssemos o presente. “Valhalla Por Eliton Tomasi” não é um espaço nostálgico, mas a manutenção de uma tradição com uma disponibilização para o futuro, para o desconhecido.

 



 
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