Editorial

O pós-headbanger
Postado em 26 de maio de 2020 @ 01:16 | 783 views

E o mundo parou. Perante uma ameaça invisível.
As implicações do isolamento social, ao contrário, são bastante visíveis. Porém necessárias.
O trabalho em home-office, a atividade física no quintal ou na sala de estar… A pior parte talvez seja a privação da socialização, da manifestação de afeto pelo toque, pelo olhar. O desejo do outro tornou-se medo.

No mundo das artes, especialmente da música, as implicações são mesmo impactantes. Seja por sua natureza pública, seja por depender, em grande parte, de uma sociabilidade presencial: os shows!

Para as bandas economicamente grandes, aqui me refiro aquelas bem famosas que fazem shows e turnês o ano todo,  as consequências da pandemia por coronavírus estão sendo mesmo problemáticas. O setor, que já sofreu duros golpes e transformações por conta da digitalização da música, agora também tem sob ameaça sua principal fonte de receitas, que são os shows ao vivo.

Por outro lado, para as bandas do underground, que com muito trabalho conseguem tocar alguns poucos shows por ano, e que precisam fazer esforços descomunais para mobilizar público para esses mesmos shows – esforços esses, na maioria das vezes, frustrados – às mudanças as quais já estamos sendo submetidos podem significar muito mais oportunidades do que desafios.

A desconstrução compulsória da normalidade pode potencializar novas formas de pensar e agir. A criatividade, nesse momento, pode fazer germinar ideias que serão consideradas novas normalidades no pós-pandemia.

As “lives” e os eventos online, como o festival “Roadie Crew – Online Festival”, tem demonstrado certa competência para isso. São mais horizontais e democráticos no acesso ao público e às bandas, possibilitando que novos e mais grupos cheguem até o grande público. A última edição do “Roadie Crew – Online Festival”, por exemplo, foi assistido por mais de 10 mil pessoas só na estreia pelo live-streaming! Se pensado no formato tradicional, um evento com essas características não mobilizaria o mesmo público nem na mais utópica expectativa.

Às margens das características desse tipo de evento online, estão também os hábitos culturais contemporâneos do público, mais especificamente dos headbangers. Dados recentes apontam que cerca de 78% do público que participou desse tipo de evento está na faixa etária compreendida entre 25 e 45 anos de idade. Não obstante, 65% também são do sexo masculino.

Não é difícil traçar um perfil do headbanger contemporâneo. Tampouco entender que no pós-pandemia, o headbanger voltará a frequentar os shows de suas bandas preferidas quando essas vierem ao Brasil. O fetiche heavy metal dos caros e grandes shows em estádios e casas de espetáculos, das pistas vips e do merchandise, terão força econômica e cultural para retornarem, mesmo que isso leve anos. Já o underground está compelido a uma reinvenção. E quem sabe a uma solução: a aceitação de que o pós-headbanger, mesmo antes da pandemia, já preferia curtir metal underground #emcasa.


Idem!
Postado em 22 de agosto de 2019 @ 18:59 | 1.485 views

Identidades são como caminhos para um sentido da vida. Parece haver inevitabilidade em nos identificar com coisas e hábitos para que essas mesmas coisas e hábitos nos tragam algum sentido para cada inspirar e expirar. Penso ser quase irresistível o desejo de nos identificar dentro de certas classificações: roqueiro, headbanger, punk, indie, músico, advogado, gay, trans, não-binário, religioso, ateu, comunista, neoliberal, feminista, terraplanista, mãe, pai, deus, diabo.

Talvez as identidades sejam mesmo essenciais. Inerentes a própria existência. Mesmo que se decida abrir mão de qualquer definição identitária, ainda assim haverá uma profissão, uma condição familiar, um nome que definirá uma identidade. Surgimos ao mundo dentro de um corpo, de uma forma, portanto dentro de uma condição física e biológica inerentemente identitária. Gosto de pensar que a identidade é a própria existência individual e essas coisas e hábitos às quais nos identificamos, são como a própria celebração do existir.

O grande dilema, a meu ver, é quando passamos a nos identificar tanto com essas coisas e hábitos de forma que elas se tornam maiores e mais importantes do que nós mesmos. Parece que passamos a olhar mais para fora e menos para dentro. É como se fosse tão importante ser um fã de Black Metal que, mesmo que eu adore Scorpions, e que músicas do Scorpions tenham marcado vários momentos importantes da minha vida, eu não possa mais ouvir Scorpions. “Vai que alguém me pega ouvindo Scorpions escondido! Eu sou um Black Metal, não posso ouvir Scorpions!”

A concentração no exterior nos faz negligenciar o interior. Um lugar onde, possivelmente, talvez poderíamos encontrar muito mais sobre nossa identidade, muito mais sobre o sentido da nossa vida, do que em qualquer outro lugar fora dali.

É preciso lembrar também que as identidades nos agrupam. E me parece que passamos a nos julgar e julgar o outro a partir de padrões de comportamento dentro desses grupos de identidades. É quando, penso eu, que a identidade escolhida passa a nos cobrar um preço caro: a nossa liberdade! De ser quem realmente somos. Incongruência! Não podemos esquecer que por trás da identidade de um grupo há identidades individuais. E por trás de identidades individuais há identidades tão profundas da qual nem nós mesmos conhecemos.

Não sei se concordam, mas eu também penso que as identidades chegam a estabelecer relações de propriedade. Meu filho, minha esposa, meu amigo, minha banda, meu crush… É como, ao se estabelecer uma identidade relacional com o outro, eu também estabelecesse uma condição de propriedade humana. Em 2019 esse tipo de relação identitária ainda é considerada normal, mas eu ouso pensar que num futuro próximo ainda haverá de ser considerado crime.

Identidades podem ser tão diversas quanto o universo em expansão, mas requerem, sobretudo, responsabilidade. Consigo e com o outro. Aliás, a palavra identidade vem do latim identitas, o mesmo que idem, ‘o mesmo’.

Identidade, em toda sua pluralidade, parece querer nos dizer duas uma coisa só: somos todos iguais. E diferentes.


Top 10 Bandas Preferidas
Postado em 22 de julho de 2019 @ 17:46 | 977 views

 

O tempo anda curto para pensar e escrever um novo editoral. Pra não passar muito tempo em branco sem material novo aqui, vou postar minha lista de 10 bandas preferidas.

Fiquem a vontade para postar a lista de vocês nos comentários também.  🙂

 

1- Black Sabbath
2- Yes
3- The Beatles
4- Genesis
5- Alice In Chains
6- Iron Maiden
7- Queensrÿche
8- Fates Warning
9- Stone Temple Pilots
10 – Voivod

 


Nascemos e morremos. Nesse intervalo, assediamos o sucesso.
Postado em 24 de maio de 2019 @ 13:17 | 879 views

Parece haver inerência entre a percepção ocidental de sucesso e a tríade poder, fama e riqueza. Sob diferentes contextos, a persona ocidental de certa forma dedica toda sua vida à busca por essa condição de sucesso. Na música, principalmente no rock, baseado em minhas experiências profissionais e pessoais, percebo quase uma obsessão por poder, fama e dinheiro – um verdadeiro assédio a essa categoria de sucesso!

Talvez porque, há 70 anos, desde seu limiar, o rock vem estabelecendo fortes ligações com o mercado. Seria estranho imaginar algo diferente considerando que o estilo musical nasceu em berço neoliberal. Aliás, o espírito libertário do rock caiu muito bem para a causa neoliberal. Lobo em pele de cordeiro, o mercado se aproximou do rock e transformou rebeldes e vagabundos em músicos milionários platinados! Um case dos sonhos! Depois do começo com Elvis e a Beatlemania, nas três décadas seguintes o mercado veio garantindo que o rock sempre estivesse no topo dos mais vendidos! E o rock, por sua vez, foi iludido, enganado. Coitado.

Quando a indústria fonográfica, que mediava a relação entre mercado e rock ‘n’ roll, atingiu seu declínio, o mercado, por padrão, fez do rock ‘n’ roll objeto de descarte. Dessa relação sobraram os antigos discos de vinil, fitas cassete, CDs e DVDs, tudo sendo vendido nos melhores sebos da sua cidade.

Mas ainda hoje é difícil, para os músicos e para toda cadeia de profissionais ligados à música, e talvez principalmente para o fã, se livrar dessa concepção de sucesso sustentada por valores econômicos, portanto de poder e fama. Hoje, para que um disco/música seja bem-sucedida, ela tem que estar nas playlists do Spotify! Para que uma banda seja bem-sucedida, ela tem que ter muitos seguidores no Face e suas fotos precisam sempre bombar no Insta. E os shows… Ah os shows! Esses têm que sempre estar lotados!

A maior tragédia é quando o sucesso vira lembrança. E muitas vezes é preciso conseguir poder, fama e riqueza, “chegar lá” de fato, para se perceber que o sucesso aconteceu, passou, ficou pelo caminho, e nem percebemos.

Gandhi dizia que “o sucesso não está apenas na conquista, mas em todo percurso”. Eu pessoalmente gosto dessa definição de sucesso.
Qual é a sua?

Sugestão Cultural:  Vale a pena assistir e comparar os longas “The Dirt” e “The Story Of Anvil”. Há muito mais em comum do que a aparente distinção mensurada por uma concepção de sucesso. 

Com o que você tem sonhado?
Postado em 13 de março de 2019 @ 17:18 | 1.102 views

Segundo Buda, “a causa de todo sofrimento humano está no desejo”. Já Freud era empírico: “o sonho é a satisfação de que o desejo se realize”.

Desejar. Sonhar.
Sonhar. Desejar.

Há mesmo algo de misterioso no desejo. E algo de incompleto.
O desejo é sempre um projetar-se, um constante estar por vir.
Desejar é o sentir da ausência. Como sonhar.

Me lembro da época em que eu editava a Valhalla impressa. Eu tinha a oportunidade de entrevistar e encontrar alguns dos meus maiores ídolos, era convidado para festas, cobria os principais shows de rock no Brasil, etc. Tinha o emprego dos “sonhos”. Mas a mente nunca desiste de “desejar”: “como seria estar em turnê, passar um tempo na estrada, tocando todo dia?”. Esse era meu desejo, projetado em sonhos, durante aqueles dias de redação.

Estar em turnês tem sido uma atividade frequente durante os meus últimos dez anos. Recentemente passei 40 dias em turnê pela Europa. Quando estava lá, não via a hora de poder estar de volta pra casa e poder escrever um novo editorial como esse.

Assim como os sonhos, os desejos só cessam com a morte. Desejar, e sonhar, parecem mesmo condições para a vida humana. No Hinduísmo diz-se que toda criação é um sonho de Deus (Vishnu). Gosto de pensar que somos deuses e deusas e através dos nosso sonhos, e desejos, podemos criar maravilhas. E tragédias.

Desejar.
Sonhar.
Vigiar.

 



 
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