Mulher: Mole como Metal! (Por Susi dos Santos)
Postado em 02 de junho de 2020 @ 17:18 | 1.110 views


A palavra “MULHER” tem origem do latim “MULIER” que, entre outras derivações, relaciona-se a palavra “MOLLIS”, que é o latim para “mole”. Isso mesmo, “mole”! Como em molenga, fraco, sem consistência, etc.

Cabe a nós, mulheres, aceitar o fato ou mudar, de fato?

Como não ser mole quando seu parceiro fala o que você tem que fazer? Como não ser mole quando o seu chefe homem te manda obedecer? Como não ser mole vendo milhares de mulheres assassinadas (feminicídio)? Como não ser mole quando nós não temos direito de ficar de peito de fora por estimular a libido masculina? Como não ser mole quando nós não temos direito ao aborto? E como não ser mole quando uma mulher revolucionária na política é assassinada e o crime não é solucionado?

Apesar do desafio, penso que temos que seguir em frente, e desenvolver toda a nossa potência, de forma a nos tornar mais estáveis e livres. Sendo que, ao contrário, na inação, nos sujeitamos ao sentido de “Mollis”.

Nessa matéria, conversamos com três entre as principais frontwomen do metal nacional; Thais Amaral, vocalista da Endigna; Mylena Mônaco, vocalista/guitarrista da Sinaya e Yasmin Amaral, vocalista/guitarrista da Eskröta. Elas quebram as regras e falam sobre assuntos que precisam serem discutidos em um cenário nada acolhedor para o considerado sexo frágil.

Por Susi dos Santos

Susi – Seguimos o estereótipo do homem headbanger, sem ao menos questioná-los. Vejo que algumas mulheres se sentem tensionadas e acabam não tendo uma boa performance no palco. Será insegurança, falta de técnica ou por que desejam ter um resultado igual ou melhor do que os homens? 

Thais Amaral – Acho que os padrões estão aí para serem quebrados de uma forma mais sutil ou na base do chute e do grito desde o início do mundo. Sobre estar tensionada, é uma questão da liberdade que você mesmo se impõe. Sendo homem ou mulher, uma vez que você saca a liberdade que o Rock/Metal te dá, não haverá amarras que te prenda. Eu mesma já cansei de ver performances masculinas tão tensas quanto femininas. No meu caso, por exemplo, é uma questão de não ter medo da entrega (não tenho medo de ficar feia no palco). Basta a busca por qualificação, seja no canto ou no trato ao palco que todo o resto se torna pequeno e irrelevante. O importante é o quão verdadeiro é.

Susi – Será que as mulheres, ao invés de seguir por antigos modelos, não deveriam reinventá-los?

Mylena Mônaco – Olha, não adianta o que a gente faça, vivemos em um mundo machista, então a mulher sempre será comparada ou considerada o “sexo frágil’’ pela sociedade em geral, como um todo. Acho que cabe a nós, mulheres, não nos preocupar tanto com essa visão geral e focar no nosso trabalho, independente de qual seja, pois a primeira pessoa que tem que estar satisfeita com os resultados somos nós mesmas!

Susi – Ouvimos muito que nós mulheres somos mais vulneráveis e imprecisas que os homens. Você acha que isso pode ser biológico ou uma questão cultural?

Yasmin Amaral – É uma questão cultural, não é nada biológico. Eu sempre fiquei pensando “por que eu não consigo fazer aquele solo tão complexo que meu amigo homem consegue fazer?”, e aí analisando o histórico de cada um. Observe. Minha família tinha resistência a me deixar tocar guitarra, porque sou mulher. Além de treinar guitarra, eu tinha diversas atribuições em casa. Os meninos não me queriam nas bandas “mais difíceis”, então não tinha ensaios com ninguém. Enfim, se você é mulher e quer tocar, você é capaz, se dedique ao máximo, apesar das barreiras e falta de apoio, se una a outras mulheres pra fazer isso acontecer.

Susi – Na formação anterior houveram só integrantes mulheres na banda. Por que a atual vocês decidiram mudar e colocar um homem?

Mylena – São vários tipos de requisitos que precisam compor o nosso time atualmente: tocar bem o nosso tipo de som no instrumento, ter 100% de disponibilidade pra shows e turnês quando precisar, comprometimento, amadurecimento e responsabilidade. Infelizmente em São Paulo não encontramos mulheres que preenchem todos esses requisitos, e decidimos optar por homens para que a banda pudesse continuar na qualidade e evoluir, como sempre fizemos, a cada formação. Mas isso não impede de num futuro, caso algum dos meninos não dê certo mais na banda, de ter novamente só mulheres. Tudo depende desses pontos que citei.

Susi – Só mulheres não dá certo, por quê?

Mylena – Não é que “não dá certo’’. Sempre dá certo até onde tem que dar com aquela pessoa. Quando alguém sai da banda, independente de mulher ou homem, é por algum motivo de convivência, ou de não ter mais disponibilidade, mudança de planos, não se identificar mais com a música, trabalho formal, ou falta de maturidade para seguir o caminho que a banda está conquistando. É normal, faz parte do ciclo da vida. Pessoas saem e novas entram, mas todo mundo que sai e que fica, sempre aprende alguma coisa.

Susi – Geralmente após os shows as bandas com integrantes homens sempre saem para se divertirem, beber, usar drogas, fazer sexo. Vocês mulheres fazem o mesmo?

Mylena – Olha, isso é história de filme, aqueles filmes de rockstar, de hard rock, sabe? (risos) De imaginar os artistas no camarim fazendo mil festas, usando drogas e com mil mulheres. Claro que tem, mas não é comum e nem regra. Na turnê que fizemos na Europa, por exemplo, depois dos shows o pessoal ia jantar, tomar banho, ajudar a desmontar tudo, e só depois no tour bus que rolava um ‘after’ com todo mundo conversando, rindo e bebendo, mas se respeitando muito. Nós já fizemos aberturas pra bandas grandes e muitos artistas ficam no sofá mexendo no celular, já vi vocalista que fazia chamada de vídeo com os filhos e a esposa, enfim, a realidade toda não é essa imagem que a mídia cria do rock ‘n’ roll. É óbvio que se um artista tiver afim de usar drogas, beijar ou fazer sexo, ele vai procurar por isso, mas não dessa forma. E isso também serve para as mulheres… Infelizmente, se a mulher sai com alguém da cena, ela é taxada de “vagabunda’’ ou dizem que “deu pra fulano’’, “pegou cicrano’’. Já o homem não, é “pegador’’ se fica com várias. É a coisa mais machista que existe. Se a mulher é solteira e está com vontade de fazer alguma coisa, tem que fazer mesmo, assim como o homem. Só que as pessoas precisam ter mais respeito na forma de tratar e abordar essa situação. Ainda falta muito respeito.

Susi – Por decidir uma forma de viver a vida diferente da tradicional, como você reage com o sonho de ter uma família e filhos? Você acha que dá para conciliar os dois?

Thais – Eu meio que fiz tudo ao contrário. Fui mãe aos 17 anos e seis meses depois formei minha primeira banda. Dali em diante eu já sabia que ter uma família nos moldes tradicionais não seria minha onda. Hoje meu filho tem 16 anos e curte muito tudo isso. E a escolha por essa vida sempre me fez estar envolvida com pessoas que estão conectadas com a música. E isso acaba não sendo uma dúvida na minha vida, meus pais sempre me apoiaram, o que acabou facilitando. Eu já fiz a minha escolha desde os 17 anos e foi a música.

Susi – Você se considera livre com os seus desejos sexuais?

Thais – Muito livre e desde sempre. Afinal, a grande mensagem do Metal/Rock é sobre liberdade. E liberdade envolve muito mais coisas que muita gente pode imaginar. Falo com muita tranquilidade, também penso que cada casal tem seu trato. Se os dois tem um acordo monogâmico, tudo certo, e se não tem, também tá tudo certo. Desde que as duas partes estejam felizes e de acordo. Isso é liberdade.

Susi – Neste mesmo contexto, o que dizer das tão mal faladas groupies?

Thais – Groupies nada mais são do que as mulheres que dão medo por serem exatamente livres. Elas entenderam, em sua grande maioria, que são donas de si e fazem o que querem e agem como querem e isso incomoda muita gente. Mas eu as amo. (risos)

Susi – Você é daquela fã tradicional que sabe tudo sobre as bandas de rock/metal na ponta da língua?  A história, discografia, nomes de todos integrantes, os nomes de todas as faixas dos discos e todas as informações do encarte?

Mylena – Acho que a gente procura saber mais esses detalhes quando gostamos muuuuito de uma banda. (risos) Eu não sou muito boa de memorizar essas coisas, mas com bandas que eu gosto mais, obviamente eu sei mais sobre a banda. Então acho que não é algo “mandatório’’ ter que saber de tudo. O importante é você curtir e estar ali pra apoiar uma banda ou a cena. Essa fase do “true’’ já passou, ou já deveria ter passado.

Susi – Você, como mulher, faz música para mulheres? Você é incentivadora?

Yasmin – Com certeza, tentamos ao máximo aproximar as mulheres da nossa música. Por isso, temos mensagens específicas que apenas quem é mulher conseguirá sentir, apesar de todos conseguirem entender, como é o caso da música “Episiotomia”, que fala sobre uma violência obstétrica. Em todos os shows, tentamos abrir espaço para que as mulheres se sintam à vontade, para que entrem no mosh e subam no palco. Acredito que ver a Eskröta, a Nervosa e qualquer outra banda composta por mulheres, em um grande festival, já seja um incentivo para que outras mulheres sigam firmes no mesmo propósito.

Susi – Por que confiar em vocês e na sua arte?

Thais – Fazemos música para que as pessoas vão aos shows e sintam a energia do Metal/Rock. Hoje estamos numa era onde se vê mais celulares levantados num show do que o poder da emoção em si. Tirar uma foto ou outra é natural. Ter um registro na câmera, maravilha! Mas o que nós buscamos com nossa música é arte, é proximidade, que as pessoas resgatem a memória de um show cheio de entusiasmo, mosh, suor e veracidade. Só assim para que o maior número de mulheres possa ter tanto a liberdade de pular, e de se verem aptas a também ter ou fazer parte de uma banda, e assim mudar o cenário atual. Afinal, foi assim comigo.

 

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